Casa de Castro Alves é inaugurada em Santo Antônio

Casa de Castro Alves é inaugurada em Santo Antônio

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por Marcos Dias

MG 340x650_1376162-2“Entra! O verso – é uma pousada aos reis que perdidos vão. A estrofe – é a púrpura extrema, último trono – é o poema! Último asilo – a Canção!”.  Estes versos e uma exposição de arte contemporânea darão boas-vindas aos convidados para a inauguração da Casa de Castro Alves, nesta segunda-feira, 16, às 19 horas, no bairro de Santo Antônio. Na sexta-feira, o espaço será aberto à visitação pública.

A Casa é vizinha à Igreja do Passo, famosa como cenário do filme O Pagador de Promessa, tem 500 m2 em três pavimentos,  e foi ali que o poeta Castro Alves (1847-1871) morou dos 7 aos 10 anos.

“A primeira vez que entrei nesta casa o impacto que tive foi de encantamento. Ela tem um espaço que eu sempre quis respeitar”, afirma a presidente do Instituto Nhaúma de   Design e Inovação (Indi), Márcia Ganem.

Comprada em 2002, o casarão do século 19 foi aprovado em 2008 em um  edital do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural para restauração de imóveis tombados, com recursos do Fundo de Cultura.

Contemporâneo

A ideia da renomada designer de moda é fazer dali um espaço de cultura colaborativo, misto de galeria e centro de cultura em que a poética de Castro Alves dialogue com todas as linguagens artísticas.

“A gente quer que as pessoas realizem ações por aqui e falar dessa energia de criança, dessa liberdade”, enfatiza Márcia, para quem a poesia de Castro Alves é contemporânea. “Há sempre a questão da dignidade humana, sem fronteiras de tempo ou espaço”.

O diretor artístico da Casa de Castro Alves, Roaleno Costa, diz que a palavra “liberdade” norteia a concepção da mostra, que conta com obras de  Samuca, Super Afro, Bel Borba, Vinicius S/A, Baldomiro, Erivan, Marcius Kaoro, Mauricio Santil, Ayrson Heráclito, Café e do próprio Roaleno dialogando com os poemas de Castro Alves.

“O que o poeta pensava era uma questão humanitária e para todos”, diz o diretor artístico, que aproveita o espaço do ambiente inaugural para exibir ao público as potencialidades de interferência no lugar.

Para o artista visual Baldomiro, que criou a instalação Casulos, utilizando sisal, o casulo, como símbolo de transformação, tem a ver com liberdade. “Dizem, e eu concordo, que o melhor representante de um povo é o poeta, porque só ele para exemplificar todas as dores e alegrias de um povo. Ele era revolucionário, amava a vida e a criação”.

Indumentárias

O segundo pavimento  é reservado para obras de fotografia e design. Estão lá trabalhos dos fotógrafos Ricardo Fernandes e Ines Grimaux, ao lado das exuberantes  indumentárias  das designers de moda Márcia Ganem e Isabelle Arciero-Mahier.

As duas dialogam com o trabalho das rendeiras de Saubara,  reinterpretando técnicas tradicionais. A parceria data de 2005 e é divulgada pelo mundo, com  excelentes resultados.

“A gente não reconhece nosso valor como povo se não valorizamos nossas tradições”, diz Márcia Ganem, que promoverá em janeiro uma oficina de Design Dialógico, voltado para designers e comunidades tradicionais.” A gente está tentando trazer para cá um dialogo da história, do antigo com o contemporâneo”.

Em outra sala do segundo pavimento serão expostos trabalhos do artista visual Fauzi Maron, assassinado em 2002. “Ele  fazia essa dinâmica de utilizar materiais sintéticos com o barro do mangue, criando esculturas e telas, rompendo com formas tradicionais. Infelizmente, é um artista que a gente perdeu para a homofobia”.

A Casa também vai promover saraus, oficinas de sensibilização poética para crianças e adolescentes do bairro, residências artísticas, recitais, oficinas de tecnologia e outras ações.

“Queremos valorizar nossas tradições e mixar isso com a contemporaneidade de diversas maneiras, fazer a poesia dialogar com o cinema, recitais, filosofia. A gente acredita que a ação colaborativa descortine diversas possibilidades de ação e sustentabilidade do projeto”.